"Antes de começar uma novela leio Balzac ou Dickens"

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Aguinaldo Silva

Guionista

Nasceu em Junho de 1944, em Carpina

Em Senhora do Destino, criou um jornal a que deu o nome de Diário de Notícias, por ser o único título de imprensa não registado no Brasil

É considerado um dos reis da novela pelas suas tramas inovadoras

Polémico nos temas que aborda, Aguinaldo Silva está em Lisboa a participar num workshop de escrita para TV, a convite da empresa de ideias ScriptMakers. Quanto à próxima novela sua a passar no País, Duas Caras, centra-se na história de um vigarista que decide mudar de vida e ficciona o empresário português João Rendeiro e o seu projecto de financiar escolas de excelência.

Quais são os ingredientes de uma novela de sucesso?

Uma boa trama, um melodrama, uma travessia difícil para o herói - - que chega a bom termo após muitos percalços - e uma dose de humor para que o telespectador possa respirar do drama central. Agora, tudo isso depende também de a novela dizer coisas que o telespectador queira ouvir naquele momento da sua vida, caso contrário não funciona.

E o seu segredo pessoal?

Antes de começar uma novela vou à minha colecção completa de Balzac e Dickens, tiro um livro ao acaso e leio. E lá eu acho tudo.

As vindas a Portugal já inspiraram algum projecto seu em concreto?

Tenho contrato de exclusividade com a TV Globo até 2010, não posso escrever para nenhum outro canal. Mas confesso que tenho uma história portuguesa já há mais de um ano, guardada para o dia em que o meu contrato com a Globo terminar.

E que história é essa?

Só posso dizer uma coisa: na minha ideia não é uma novela, mas uma minissérie longa, que começa no Brasil com um imigrante português e atinge o auge em Portugal, em plena Revolução do 25 de Abril de 1974.

Qual o trabalho que mais o marcou?

Todo o novelista acha que a melhor novela foi a última, então para mim foi a Senhora do Destino que mais me marcou, pelo menos até agora. Mas não posso deixar de falar em Roque Santeiro e Tieta do Agreste, que me dizem muitíssimo.

E a personagem?

Bom, eu gosto muito dos meus vilões (risos). A Nazaré foi uma vilã fantástica em Senhora do Destino, Perpétua em Tieta... São eles que mais mexem comigo, sem dúvida.

Como faria o ponto de situação do guionismo actual?

Neste momento, as melhores coisas feitas em matéria de roteiro (o que vocês chamam de guionismo) são da TV americana, sobretudo os seriados. Antes de escrever Senhora do Destino, por exemplo, vi a primeira temporada d'Os Sopranos dez vezes. Por incrível que pareça, a novela acabou por ganhar muito da série.

E no Brasil?

Lá, como as novelas são um produto poderoso, tolhem a criatividade dos autores. Há tanto para resolver em função da novela que as histórias acabam meio convencionais. Já em Portugal, onde a novela aflorou de modo surpreendente sem ser ainda um "monstro", o roteirista tem a oportunidade rara de ser muito criativo. É o momento de ousar.

Em termos de qualidade, os portugueses têm vindo a aproximar-se dos brasileiros ou são realidades completamente distintas?

As nações são diferentes, mas as novelas portugueses agora no ar (e eu vejo várias porque sou assinante da TV Cabo no Brasil) têm um nível de qualidade próximo do das nossas. As brasileiras atingiram mais excelência pela prática: tanto se fez novela no Brasil que surgiram especialistas. Mas as vossas são óptimas.

O que faz um bom guionista?

Primeiro, tem de ter uma elevada cultura cinematográfica. Depois tem de ver televisão, perder o preconceito de que ela é um género menor, e cultivar um sentido de disciplina muito forte. Escrever novelas implica meses de trabalho, por isso eu digo que o novelista tem de ter 30% de talento e 70% de disciplina.

Está em Lisboa a ministrar um curso de escrita televisiva a convite da ScriptMakers. O que sairá daqui?

A ideia era juntar roteiristas portugueses, experientes em cinema ou TV, para integrarem o processo de criação de uma novela. E aí, do dia 15 até 2 de Março, durante três semanas, quatro vezes por semana e três horas por dia, vamos criar uma sinopse, os perfis das personagens e os três primeiros capítulos.

Já têm planos para essa novela?

Depois de pronta é entregue à ScriptMakers e provavelmente eles vão usá-la, mas ainda não discutimos detalhes. Eu sou o cabeça de novela, a criação é colectiva. Uma vez produzida, o futuro a Deus pertence.

A vida é uma telenovela?

Não. Nem podia. No real as coisas acontecem e depois não se passa nada durante uns tempos, há a rotina. Na novela os acontecimentos precipitam-se. Ela finge imitar o real, mas se a vida fosse como as novelas a gente ia morrer bem mais cedo.

Como se processa o acto criativo de escrever? Em que é que se inspira?

Antes de ser novelista já era escritor, fui jornalista 18 anos e sou um leitor compulsivo de jornais. Então, todas as minhas histórias saem dos jornais, a ficção surge da realidade. Tenho uma pasta enorme com recortes de notícias que me interessam e vou usando essas histórias.

Qual a sensação que fica quando acaba de escrever uma novela?

Um novelista tem de se abstrair da sua vida pessoal. Despede-se dos amigos, da família, passa a conviver com as personagens. E de repente elas tornam-se reais, só vemos aquilo. E os amigos percebem isso e afastam-se. Um belo dia a novela acaba, a gente descobre que está só, no vazio, e volta a reatar os laços até à próxima novela. É difícil de gerir.

Projectos para o futuro próximo?

O mais imediato é fazer a sinopse com os roteiristas portugueses, o segundo mais imediato é uma novela que estreia em Novembro, na Globo, e tem o título provisório de Duas Caras. Em Portugal, esse trabalho vai passar logo a seguir a Paraíso Tropical, de Gilberto Braga, que substitui Páginas da Vida. Eu entro a seguir.

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